Sinto os olhos pesados mas já não sei chorar...
Sinto o corpo dormente mas não estou cansada...
Sinto a alma vazia mas continuo viva...
Nunca estamos preparados para a tristeza, para a doença, para a incapacidade e impotência de ver quem amamos a sofrer, tenha que idade tiver...
Mais uma vez sinto um peso dentro de mim, uma tristeza gritante e uma vontade de abraçar e embalar a minha avó, tal como o faço a um dos meus meninos quanto tem um “doi doi”...
Sei que faz parte, sei que tenho que me preparar mas quando estou diante dessa possibilidade como algo real e não meramente teórica, a dor invade-me os poros...
Não é uma carta de despedida propriamente dita, porque essa não aconteceu. É uma carta onde coloco sem barreiras, sem filtros, sem pensar, o que sinto neste momento...
Uma carta onde lembro todos os momentos que fazem parte da minha história e da minha avó Natércia... Por isso estas palavras são para ti...
Tenho saudades das sopas de tomate que fazias com tanto gosto só para mim, das ervilhas e ovos escalfados que preparavas especialmente quando ia visitar-te;
Saudades de te ver brindar com um calice de vinho do Porto e às vezes bebê-lo de um trago ;
Saudades de passarmos o Natal juntas e de te ver embrulhada no xaile e com a manta nas pernas;
Saudades do teu sorriso e das expressões que só tu usavas e faziam lembrar-te o teu Alentejo;
Tenho saudades da avó e não da pessoa que o maldito avc deixou...
Doi-me a alma e o corpo cansa-me sentir que não vais estar lá no dia em que me casar, que não irás conhecer nenhum bisneto e não estarás lá para me dizeres ao meu ouvido “Finalmente filha!”
Oh avó, porque é que doi tanto????
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